segunda-feira, 26 de novembro de 2012

A mídia e o silêncio nosso de cada dia



 Até que ponto o corpo feminino é visto como propriedade pública? Será que as mulheres tem realmente direito ao corpo delas? 

O estereótipo da "mulher perfeita" e o mito da beleza são as maiores armas da sociedade patriarcal contra a mulher. O corpo feminino deve sempre se adequar ao formato que a mídia reproduz como o adequado, pelo menos é isso que a todos nos dizem. E se você não nasceu "perfeita", a mídia capitalista te ensina desde a mais tenra idade: "você precisa consertar isso, você precisa ser perfeita, você precisa se encaixar no padrão", e para nos "ajudar" a alcançar este conceito imaginário de perfeição, o mercado e a mídia capitalista nos oferece uma variedade de "soluções", a um preço bem alto claro, como sapatos, maquiagens, roupas de "marca", depilação, manicure, cabeleireiro, cirurgia plástica, cremes rejuvenescedores e dietas dos mais variados tipos. E claro que tudo isso deve ser feito com o seu corpo para que você consiga a "graça e a benção" de amarrar um homem, ou de atrair olhares masculinos, o que fica bem explicito até nas propagandas de absorventes femininos. Afinal tudo o que você pensa quando compra um absorvente é se você vai conseguir atrair olhares masculinos enquanto estiver usando, né?

Propaganda Intimus Gel "Aeroporto"
Além das propagandas consumistas e capitalistas, temos as séries de televisão, as novelas, os jornais e diversos outros meios, onde são incentivados comportamentos que normatizam a submissão feminina, a noção da mulher como uma propriedade masculina (seja do pai, do marido, do namorado) e a cultuação da objetificação e hiper-sexualização do corpo feminino.

Dessa forma a mídia consegue, de forma muito eficiente, fazer com que a mulher perca o poder e o direito de decidir sobre o próprio corpo. Afinal ela nos ensina que tudo o que compramos, tudo o que vestimos, tudo o que fazemos com nosso próprio corpo deve ser feito de acordo com o que a sociedade machista deseja de façamos, para agradar os olhares masculinos e obter a aceitação da patriarcado. Não de acordo com nossos próprios desejos, com nossas próprias vontades. Embora alguns possam ver as verdadeiras intensões capitalistas da mídia, a grande maioria (por falta de informação ou por vontade de continuar cego) a segue como verdade absoluta, como uma realidade imutável e normal.


Existe uma polêmica em torno do controle da mídia. Alguns dizem que é censura, mas a questão é que a desculpa da "liberdade de expressão" usada para continuar incentivando preconceitos e reforçando estereótipos é um discurso cada vez mais fraco, pois a realidade é que o direito de qualquer um, inclusive da mídia, de se expressar livremente têm um limite, e este limite acaba quando se atinge o direito do próximo de ser respeitado. Também é comumente usada a desculpa de que a mídia dá o que o povo quer ver, mas aonde fica a responsabilidade da mídia e do governo nisso? A mídia é capaz de influenciar milhões de pessoas, e tem poder para direcionar o caminho da sociedade. É capaz de criar revoluções e também de cegar as pessoas, quando isso protege seus interesses. Se a mídia têm esse poder, ela deve ser responsabilizada pelas informações que propaga, e deve haver um controle e uma fiscalização muito minuciosas e cuidadosas do que está sendo veiculado para a sociedade.


Com o apoio da mídia, a sociedade patriarcal consegue manter o conceito do corpo feminino como propriedade pública e, consequentemente, mantém viva e ativa a cultura de estupro. Relatos de vítimas que sofreram abusos sexuais, físico e psicológicos, e, principalmente, a reação das pessoas em relação a esses relatos, expõe esta normatização da sociedade. Procura-se inúmeras justificativas para culpar a vítima e/ou as circunstâncias ao invés de culpar o agressor: se a mulher estava bêbada a culpa é dela por ter ficado tão embriagada, se a mulher estava com uma roupa muito curta a culpa é dela pois mulher que anda de roupa curta está pedindo para ser insultada na rua, se a mulher estava caminhando sozinha a culpa é dela que deveria estar acompanhada de alguém por ser perigoso andar sozinha por aí. Um homem andando em uma rua perigosa e escura a noite pode ter seus bens materiais tirados e até sua vida tomada, mas uma mulher na mesma situação teme muito mais que isso, ela teme ter roubada a sua dignidade, o seu intimidade, a sua paz, a sua alma.


Os danos psicológicos e físicos causados com todo esse preconceito e ódio circulando contra as mulheres estão nos destruindo: as taxas de depressão entre as mulheres são duas vezes maiores que a dos homens, mais da metade da população feminina tem transtornos alimentares, mais de 40 mil feminicídios  ocorreram na última década só no Brasil (lembrando que, diferente das mortes por violência cometida por homens contra homens, o feminicídio é o ato de tirar a vida de uma mulher por preconceitos de gênero, geralmente por ser considerada como uma propriedade masculina), estudos mostram que 43% das mulheres brasileiras afirmam já terem sofrido alguma forma de violência sexual e doméstica, 13% relataram que foram estupradas, porém é estimado que apenas 10% a 20% desse total denunciam o abuso.

O pior de todos esses danos é o silêncio. Internalizamos nossa dor, pois aprendemos no nosso cotidiano, nas notícias e nas mídias, que a palavra de uma mulher contra um homem, na grande maioria das vezes, não tem valor. Aceitamos caladas todos os dias aquele homem nojento te chamando de "princesa" e passando a mão no seu corpo sem o seu consentimento no metrô;  aceitamos caladas quando aquela moça boazinha do nosso trabalho chega na manhã de segunda-feira com as marcas de uma violência doméstica no rosto; aceitamos caladas quando somos chamadas de "vadia" ou de "puta" na rua pelo fato de ter escolhido usar um vestido naquele dia; aceitamos caladas a notícia de um estupro de duas jovens em um show e ouvimos silenciosamente nossos amigos e parentes condená-las e dizerem que a "história está mal contada"; aceitamos caladas quando vemos uma amiga começar a forçar o vômito todos os dias após almoçar pois o namorado dela falou que ela está feia por que engordou; aceitamos caladas uma menina de 10 anos chorando e falando que quer morrer por que ela engordou 2 quilos; aceitamos caladas todas as agressões praticadas contra nós, sejam elas explicitas ou não.


Eu escolhi não me calar nunca mais. E você?

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Feminismo e Machismo na Visão Atual da Sociedade Brasileira

Em 2010, uma pesquisa de opinião pública realizada pelo SESC e pela Fundação Perseu Abramo mostrou diversos resultados bem interessantes. O estudo"Mulheres Brasileiras e Gênero nos Espaços Públicos e Privados", foi divida em seis principais tópicos:
- Percepção de ser mulher, machismo e feminismo
- Divisão sexual do trabalho e tempo livre
- Corpo, mídia e sexualidade
- Saúde reprodutiva e aborto
- Violência doméstica
- Democracia, mulher e política

Todos os assuntos pesquisados são muito relevantes para a luta feminista, mas para este post me foquei principalmente no primeiro assunto tratado pelo estudo, a percepção de ser mulher, machismo e feminismo.

Os resultados da pesquisa são apresentados em longas tabelas, pois é uma pesquisa bem completa com diversos dados complementares, por isso coloquei as informações mais interessantes em forma de gráfico para ficar mais ilustrativo e de fácil compreensão. 

Foi questionada para a amostragem feminina quais são as melhores e piores características de ser mulher. A resposta era de múltipla escolha, ou seja, poderia ser escolhida mais de uma opção. A maior parte apontou que a melhor coisa de ser mulher é a gravidez (50%) e a criação dos filhos (19%). O restante das opções ficaram bem dívidas destacando o casamento/família (união familiar, ser amada), o mercado de trabalho (poder trabalhar, exercer qualquer profissão) e a liberdade/independência familiar (não precisa mais ficar presa, poder agir como quer).


Quando questionadas a respeito de quais características são as piores em ser mulher as opiniões ficaram bem dívidas, sobressaindo a discriminação social/machismo (sociedade machista, fica mal falada), mercado de trabalho (não há igualdade, não é valorizada, ganham menos) e violência contra a mulher (apanhar do companheiro, violência física).


Foi também questionado a amostra masculina estudada quais as melhores e piores características de ser homem. As três principais vantagens citadas foram as características masculinas (não engravidar, não menstruar, ser mais respeitado), a liberdade/independência (tem mais liberdade, pais liberam mais, não fica mal falada) e trabalho (tem mais emprego, pode fazer trabalhos pesados).


Ao serem questionados a respeito das desvantagens masculinas, a grande maioria (37%) respondeu que não há nada de ruim em ser homem, resultado este que corrobora com outros diversos estudos que mostram que a auto-confiança e auto-estima masculina é muito superior a feminina. Outras duas desvantagens muito citadas foram a família/filhos (responsabilidade familiar, ter que trabalhar mais) e características masculinas (maior cobrança, fazer a barba todos os dias, fazer exame de próstata).


As mulheres da amostragem foram questionadas se elas se consideravam feministas. Um total de 27% afirmaram que se consideram totalmente ou parcialmente feministas, 37% afirmou que não se consideram feministas e 35% afirmaram não saber ou não sabiam o que era feminista.


Cerca de 50% das mulheres entrevistadas e 43% dos homens entrevistados veem o feminismo com uma visão positiva e mais próxima a realidade do movimento, como luta por direitos iguais, mulheres livres e independentes e auto valorização/auto respeito. Cerca 20% das mulheres e 33% dos homens, veem o feminismo como um movimento que defende a superioridade das mulheres ou que são mulheres autoritárias/mandonas. 15% das mulheres e 12% dos homens confunde, acha que o movimento feminista são mulheres vaidosas, delicadas, femininas, donas de casa, boa esposa, boa mãe. 19% dos homens e 23% das mulheres não sabe o que é ou se recusou a responder.



Apesar de na pesquisa, apenas 22% da amostragem masculina se considerar machista, algumas perguntas de cunho machista foram feitas para homens e mulheres e as respostas dadas mostram que o machismo ainda é um problema atual e corriqueiro no nosso dia-a-dia. 

A porcentagem de concordância com frases machistas foi muito maior entre o sexo masculino, assim como também foi maior entre eles a porcentagem de respostas em que eles não concordaram, MAS também não discordaram das afirmações machistas. 

Vemos uma maior diferença de opinião entre os gêneros masculinos e femininos em relação a frase "Nas decisões importantes, é justo que na casa o homem tenha a última palavra". Enquanto apenas 23% das mulheres concordaram com esta afirmação, 43% dos homens o fizeram, sendo que mais 9% afirmaram nem concordar, nem discordar.


Estes dados são muito esclarecedores, pois, além de corroborarem com outros estudos de pesquisa de gênero. Também demonstram que o machismo é sim um problema muito atual e preocupante e que deve ser combatido pelo feminismo, porém um dos principais (prováveis ) problemas da não aceitação da causa feminista é a falta de conhecimento sobre ele. É importante que o movimento combata o sexismo e o sistema patriarcal na nossa sociedade, mas mais importante é a conscientização das pessoas para o que é e por que é essencial a luta feminista.

sábado, 17 de novembro de 2012

Violência contra a mulher: quem pode fazer a maior diferença?

Li um texto essa semana em um site australiano a respeito da importância do feminismo. O artigo discorre a respeito de um estudo realiza por Cambridge, onde foram consultados 70 países diferentes, que afirma que diferenças positivas em relação ao combate a violência domestica, foram conquistadas principalmente devido ao movimento feminista.

Segue o artigo traduzido:

Violência contra a mulher: quem pode fazer a maior diferença?


Parece que é normal para o discurso do século XXI regularmente "verificar o pulso" do feminismo. Inúmeros artigos, colunas, blogs e conferências fazem as mesmas perguntas: Está funcionando? Ele falhou? É o "feminismo" uma palavra suja?

Este diálogo é, inevitavelmente, cansativo e, mais importante, desvia a atenção para longe de reais questões feministas, como a violência contra as mulheres.

Com isso em mente, feministas comprometidas, cansadas ​​desta mídia constantemente duvidando do movimento, ficarão felizes em ouvir as últimas notícias de Cambridge e da American Political Science Review.

Para conhecimento: durante quatro décadas, o estudo de 70 países descobriu que os movimentos feministas são a chave mais importante para mudar para melhor quando se trata de eliminar a violência contra as mulheres; mais importante do que a política de esquerda, a riqueza individual de cada país, ou o número de mulheres políticas na região.

O estudo é incrivelmente abrangente. Ele "inclui todas as regiões do mundo, em diferentes graus de democracia, países ricos e pobres, e uma variedade de religiões do mundo - abrange 85 por cento da população mundial. A análise dos dados levou cinco anos, razão pela qual o ano mais recente coberto pelo estudo é de 2005."

Isso deve ser munição suficiente para silenciar àqueles que gostam de reclamar sobre o tamanho dos grupos de amostra de outros estudos não serem verdadeiramente indicativos de tendências globais.

(O relatório completo pode ser acessado aqui.)

O relatório concluiu que a questão da violência contra as mulheres foi primeiramente articulada por movimentos feministas, que então estimulou os governos a agirem em cima de algo que poderia ter sido simplesmente marginalizado como "problema das mulheres".

Em outras palavras, longe de simplesmente ficarem gastando seu tempo lamentando-se e/ou fazendo campanhas sobre depilação (o que parece ser a percepção do público em geral de o que as feministas fazem), as feministas foram instrumentais em trazer mudanças para melhor, motivando a mudança do governo, transformando os meios de comunicação em relação às questões feministas, e ganhando o apoio público para colocar mais pressão no governo à respeito das lentas mudanças de políticas (leis).

Como o co-autor do estudo, Mala Htun, explicou: "Os movimentos sociais estruturam as agendas públicas e governamentais e criam a vontade política para resolver problemas. A ação do governo, por sua vez, envia um sinal sobre as prioridades nacionais e do significado da cidadania. As raízes das mudanças de políticas sociais progressistas estão na sociedade civil."

A recente discussão pública sobre a violência contra a mulher, que foi estimulada pelo suposto estupro e assassinato de Jill Meagher, demonstrou que ainda há muitas pessoas que ainda não se convenceram de que a violência contra as mulheres é um problema tão grande assim. (os defensores do "Lugar errado na hora errada” ou "Eu nunca bati em uma mulher" sendo os principais ofensores).

A realidade, claro, é muito mais grave do que a que os privilegiados ou complacentes gostariam que você acreditasse.

O co-autor S. Laurel Weldon, observa, "Violência contra as mulheres é um problema global. Pesquisas da América do Norte, Europa, África, América Latina, Oriente Médio e Ásia encontrou taxas incrivelmente altas de agressão sexual, assédio, tráfico, violência nas relações íntimas, e outras violações dos corpos e psiques das mulheres . Na Europa, é um perigo maior para as mulheres do que o câncer, com 45 por cento das mulheres europeias que já experimentam alguma forma de violência física ou sexual. As taxas são semelhantes na América do Norte, Austrália e Nova Zelândia, e estudos na Ásia, América Latina e África mostram que a violência contra as mulheres está em todo lugar."

Notícia triste, com certeza, mas é difícil evitar a sensação de que o estudo de Weldon e Htun é uma resposta muito concreta para o onipresente diálogo "O feminismo fracassou?"; na verdade, é uma vindicação.

Se os resultados dos estudos servem como qualquer indicação, parece que o feminismo está apenas começando. 


Para ler o artigo original em inglês pode ser acessado aqui.

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Cultura de Estupro no Mundo Judicial

Casos de estupro e abuso sexual já se tornaram parte do nosso cotidiano. Enquanto a mídia expõe novos casos de violência sexual quase que diariamente, raramente a população tem conhecimento do que acontece a vítima e ao agressor quando o caso é finalmente levado à justiça.

Assim como na sociedade vemos fortemente enraizada a cultura de estupro, também é possível verificar este padrão de comportamento nas decisões judiciais. Esta cultura estando disseminada também na justiça faz com que o tratamento legal dispensado as vítimas de estupro seja frequentemente marcado pela discriminação, pelo uso de estereótipos e pela desigualdade.

Em um estudo de 2002, chamado “Vítimas e Vilãs, Monstros e Desesperados: Como o Discurso Judicial Representa os Participantes de um Crime de Estupro”, faz-se uma análise de como a justiça ainda é injusta quando se trata de crimes de cunho sexual. Apesar de o estudo ter sido realizado com casos britânicos e já ter 10 anos, pode-se verificar que ele é muito pertinente a nossa realidade judicial.

Essa lógica do nosso judiciário baseia-se na separação de homens em duas categorias: os “normais”, incapazes de cometer um estupro, e os “anormais” que merecem ser punidos. Do mesmo modo, separa as mulheres entre aquelas que merecem uma proteção contra os “anormais” e as outras mulheres que, lascivas e vingativas, se aproveitam da existência deste crime horripilante para reivindicar direitos que não lhes cabem.

Como explica a pesquisa, é freqüente encontrarmos as seguintes divisões em relação à vítima no sistema judicial:

A vítima genuína
Entram nessa descrição as vítimas do estupro considerado pela justiça e pela sociedade como “padrão”: agressor desconhecido, vítima dominada fisicamente e que não “contribui” para o ataque e com relação sexual completa.
Também costumam entra nessa categoria as moças virgens (a virgindade é usada como prova incontestável de sua “boa reputação” e contribui para a credibilidade da vítima), senhoras idosas, mulheres que resistiram fisicamente ao ataque e mulheres estupradas por parceiros, mas que expressam o desejo de perdoá-los (como ela perdoou o agressor é considerado que o trauma psicológico e mental deve ser menor, o que geralmente reduz a pena do apelante).

A vítima não-genuína
Entram nessa descrição as vítimas que tenham comportamento considerado “fora da linha” e que podem ter de alguma forma “provocado o ataque”, geralmente qualquer detalhe da vida pessoal da vítima é usado contra ela: se bebe álcool, se vai a bares, se tem uma maior liberdade sexual, se anda a noite sozinha, se não é virgem, tem muitos amigos homens, se já teve muitos empregos, etc. Qualquer comportamento que possa não enquadrar ela como uma “mulher honesta” será apontado como a causa do estupro. Vítimas de parceiros ou ex-parceiros também entram nessa descrição, pois há um pensamento coletivo, de que a existência de uma relação prévia entre agressor e vítima torna o evento menos traumático e muito mais difícil de comprovar. É importante ressaltar, porém que o estupro cometido por um conhecido pode ser mais traumático do que aquele cometido por um estranho, uma vez que provoca na vítima sentimentos de quebra de confiança, culpa e rejeição.
 
É também muito comum encontrarmos as seguintes descrições em relação aos acusados:

Estupradores desconhecidos
São classificados de duas formas: os monstros e criminoso desequilibrado. Ambos são vistos como criminosos, muito perigosos e distintos dos homens “normais”. O monstro age por “pura maldade” e o desequilibrado age por “problemas psiquiátricos ou abuso de drogas”. Essa classificação dos estupradores desconhecidos promove e mantêm a cultura de estupro, pois insinua que os estupros “verdadeiros e sérios”, são cometidos apenas por homens morais ou psicologicamente deficientes, enquanto que homens “normais” não se comportam dessa forma.

Estupradores conhecidos
São os considerados desesperados, que agiram dessa forma não por serem criminosos ou perigosos, mas sim por uma mistura de amor frustrado, dor, stress e desespero. Representa uma tentativa judicial de tratar o agressor com simpatia e benevolência, e de explicar e normalizar suas ações.
São usados pelos juízes para diminuir a pena, justificativas como: “um homem de caráter exemplar”, “quando depressivas, ansiosas, pessoas podem agir irracionalmente devido ao seu estado mental”, “qualquer juiz iria tentar descobrir o que causou a mudança no comportamento deste homem”.

Mesmo que haja provas concretas, laudos psiquiátricos da vítima, exames de corpo delito para conjunção carnal e para violência, todos evidenciando a ocorrência do estupro, na grande maioria dos casos, para que ocorra a condenação e punição adequada do agressor é preciso que ele se enquadre no “estereótipo de estuprador” e que a vítima se enquadre no estereótipo de “mulher honesta”. Se estes estereótipos não estiverem presentes no caso as chances de um agressor sair impune são muito altas. O sistema de leis contra o abuso sexual age em favor da vítima, porém vemos uma repetição de julgamentos e atos judiciais que costuma culpabilizar a vítima e vitimizar o agressor.

Foi estimado, pela Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, que apenas 10% das vítimas de estupro denunciam o crime às autoridades.  A escolha de não denunciar o estupro decorrem em grande parte do descrédito das mulheres nas instancias judiciárias e de segurança publica e por todas as demais atitudes da sociedade que em geral naturalizam a inferioridade da mulher e o uso de violência contra elas, pois ainda vigora uma moral julgadora e condenatória da mulher vitima de estupro.

Estudos e pesquisas na sociedade e análises psicossociais evidenciam que crimes de violência sexual estão diretamente ligados com questões socioculturais como a violência de gênero, a violência doméstica, a desigualdade de gênero e o alto grau de tolerância social em relação ao fenômeno da violência contra a mulher. A cultura de estupro permite que estes crimes ocorram todos os dias, permite que os agressores saiam impunes, permite que a justiça use como evidência da inocência do agressor o fato de a vítima estar usando calça jeans, permite que a vítima se sinta como a principal culpada de ter sido violentada, permite que a mulher continue sendo moralmente julgada e inferiorizada pela sociedade. 

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Desmistificando o Feminismo

Fonte: http://blogueirasfeministas.com
Não é incomum vermos pessoas falarem que feministas são obcecadas com estupros, que as feministas gostam de colocar a mulher no papel de vítima, que as mulheres já tem todos os seus direitos conquistados, que inclusive temos mais direitos que os homens agora, afinal temos leis que favorecem exclusivamente a nós mulheres.


Enfim, procura-se diversas formas para diminuir e satirizar o valor da luta feminista, e, infelizmente, muitos têm sucesso nisso. Eu mesma já presenciei diversas pessoas falando "não sou feminista, só quero direitos iguais para homens e mulheres", "não me considero feminista pois não conheço direito a causa" ou "não me considero feminista pois não sou militante". O backlash do sistema contra o feminismo teve um incrível sucesso, foi tão bem executado que temos vergonha de nos assumir feministas.

Feminista se tornou sinônimo de encalhada, de mal amada, de feia, de solteirona, de chata, e de uma porção de outros adjetivos nem um pouco simpáticos. Os mitos e inverdades que circulam o feminismo são muitos. Por isso no post de hoje vamos desmistificar um pouco o feminismo.

- Feminista é o oposto de machista: não é, simples assim. O oposto de machista é femista. Veja as definições.
Machista: Partidário do machismo. Homem que é bruto com as mulheres, descortês, não é cavalheiro e as acha inferior. Homem superior a mulher.
Femista: Diz se da pessoa que age com femismo. Quem pratica discriminação de gênero face ao homem seja por atos, ideias ou referências. Mulher superior ao homem.
Feminista: Uma corrente política, intelectual e filosófica que tem como meta os direitos iguais e a proteção legal às mulheres. Homens e mulheres são iguais.

- Feministas odeiam os homens: também uma inverdade e das grandes. Muitos homens quando falamos em cultura de estupro e nos altos índices de violência doméstica se sentem profundamente ofendidos, parece que apontamos o dedo para eles e falamos "a culpa é toda sua". E não é esse o objetivo. Quando falamos nestes assuntos tão polêmicos é para aumentar a conscientização das pessoas em relação ao sistema patriarcal. O sistema não é culpa exclusiva de ninguém. Mas se cada um se conscientizar do seu papel dentro dele e tentar mudar e fazer diferente, com certeza iriamos conseguir avançar como sociedade. Portanto, não odiamos os homens, odiamos o sistema patriarcal.

- As mulheres já conquistaram todos os seus direitos ou as feministas são vitimistas: não conquistamos ainda nem o primordial direito de escolha sobre o nosso próprio corpo. Os números de violência doméstica são chocantes, a cada 20 minutos uma mulher foi estuprada no Brasil no ano de 2011, a mulher ganha, nas médias salariais, 30% a menos que os homens mesmo em ocupações e cargos iguais, pesquisas apontam as mulheres fazem todo ou quase todo o serviço doméstico dentro de casa, serviço este que equivale a 26 horas semanais de trabalho não remunerado. Igualdade de gêneros alcançada? Acho que não né?

- As mulheres eram mais felizes antes do feminismo: antes da emancipação feminina, ser mulher era ser uma sub categoria humana, era não ter voz para expressar suas opiniões, era não ter opção, não ter escolha. A vida inteira de uma mulher era definida no seu nascimento, quando o médico dizia "É uma menina", isso implicava em apenas um futuro: casar, ter filhos e ser dona de casa. Imagine não ter voz, não ter direito nenhum sobre sua própria vida e ser condenada a uma vida sem escolhas, felicidade era algo desconhecido. "Toda mulher suburbana luta com isso sozinha. Enquanto ela faz a cama, faz as compras de supermercado, combina materiais de toalhas para cobrir os móveis, come sanduíches de creme de amendoim com seus filhos, leva seus filhos até os Escoteiros, deita-se ao lado do seu marido a noite – ela estava com medo de perguntar até para ela mesma – “Isso é tudo?” ― Betty Friedan, The Feminine Mystique, publicado em 1963."

Tradução:
 Dois pais é melhor que nenhum
Duas mães é melhor que nenhuma
Uma mãe e uma pai é melhor que nenhum
Uma mãe é melhor que nenhuma
Um pai é melhor que nenhum
Não há nenhuma diferença
Todos eles são uma família
- O feminismo quer destruir a família tradicional: queremos que todas as pessoas tenham direito de escolha, se querem ter uma família tradicional, se querem simplesmente ter uma produção independente, se querem casar com alguém do mesmo sexo, se não querem casar, a decisão é de cada um. O feminismo quer que as pessoas sejam livres para fazerem com suas vidas o que elas acharem melhor. Impor a chamada "família tradicional" para todos é impedir este direito.

- O feminismo não luta por igualdade, luta por regalias para as mulheres: para responder este mito mentiroso te faço algumas perguntas.
É regalia querer receber um salário igual ao do seu colega de trabalho do sexo masculino que executa exatamente as mesmas tarefas que você mas ganha um salário 30% maior que o seu?
É regalia querer lutar  contra a violência doméstica, sendo que só na última década 43,5 mil mulheres morreram devido à ela? Sendo que esse tipo de violência aumentou 217,6% nos últimos 30 anos?
É regalia querer que culpem o estuprador ao invés de culpar a vítima, como geralmente acontece em diversos casos?
É regalia ser contra a mídia que trata o corpo feminino como um objeto e que impõe um padrão de beleza inatingível como o "ideal"?
É regalia querer que as leis sejam mudadas para que a mulher tenha direito de decidir sobre seu próprio corpo, sem a interferência da opinião da sociedade e de religiões?
É regalia querer combater uma cultura que julga, condena e não respeita uma mulher devido às escolhas sexuais dela ou devido à escolha do vestuário dela? Sendo que isso tipo de crivo NÃO acontece com os homens?
Se você considerar essas lutas como "regalias", então sim, lutamos por elas.

- Se o feminismo quer igualdade, por que não luta por ...: é muito comum ouvirmos esse tipo de mimimi. Vou citar alguns aqui.
Por que não lutam pelo fim da aposentadoria mais cedo: eu acredito (e creio que a maioria das feministas também) que a aposentadoria deveria ser igual para todos, pois a aposentadoria feminina mais cedo, parte do pressuposto de que a mulher executa e deve executar todo o trabalho doméstico de casa, trabalho este que não é computado na carteira de trabalho.

Por que não lutam pelo alistamento obrigatório para mulheres: o alistamento não deveria ser obrigatório para ninguém e ponto final. Você obrigar alguém a se alistar para o exército é errado, é uma forma de ditadura. A opção deveria ser individual de cada um (feminina e masculina).

Por que não lutam contra o estupro de homens e violência doméstica masculina: esse é um assunto delicado, mas que muitos usam como argumentação quando querem desvalorizar a luta feminista. Sim, é um fato, homens também são estuprados, homens também sofrem violência doméstica. Em nenhum momento as feministas defendem que todas as mulheres são anjinhos e sempre estão certas. Mulheres também cometem crimes, mulheres também estupram, mulheres também batem em seus parceiros, mulheres também cometem abuso sexual infantil. O problema é querer diminuir toda a causa feminista por causa destas mulheres. Já falei algumas vezes aqui no blog que sou contra a generalização contra homens, e também sou contra a generalização contra as mulheres. A discriminação contra o gênero masculino também existe, porém em menor número e muitas vezes esta discriminação é vista como vantagem. A discriminação contra o gênero feminino é muito maior, e vem desde o famoso "pecado capital" em que a coitada da Eva recebeu toda a culpa de ter comido a tal maçã. A luta feminista, na minha humilde opinião, luta contra qualquer tipo de discriminação e preconceito, mas sua principal luta continua sendo contra a discriminação e preconceito contra as mulheres. Nem por isso as outras causas deixam de ter importância. 

Desculpem pelo post longo, mas é que, infelizmente ainda existem muitos mitos e pré conceitos (preconceitos) contra o feminismo. Quis abordar apenas os mais "famosos" e disseminados por aí. Espero ter conseguido esclarecer alguns pontos. Muitos desconhecem o assunto ou o conhecem muito superficialmente e isso acaba ajudando a espalhar estes mitos, portanto quanto mais plantarmos a sementinha do feminismo por aí, mais conscientizadas as pessoas ficarão e conseguiremos acabar com estas inverdades.

sábado, 10 de novembro de 2012

Combate a Gordofobia: uma Luta Feminista

"A mulher gorda, mais do que o homem, é segregada e anulada. Mas o peso que mais a incomoda não é aquele registrado na balança — é o da consciência. Quase inevitavelmente, as explicações dadas para a gordura apontam para o fracasso da própria mulher em controlar seu peso, seu apetite e seus impulsos. As mulheres que sofrem do problema da compulsão de comer (que ataca quase todas as gordas) suportam uma dupla angústia: sentem-se desajustadas socialmente e acreditam ser as únicas culpadas por isso. [...] Se torna cada dia mais claro que a gordura é uma questão feminista. Ela é um problema social, nada tem a ver com a falta de controle ou de força de vontade da mulher, mas pode se tornar uma curiosa forma de protesto." Gordura é uma questão feminista, de Susie Orbach, publicado em 1976.

Apesar de 35 anos terem se passado desde a publicação do livro de Orbach, o texto acima ainda se encaixa perfeitamente na nossa realidade atual.



Essa semana saiu a seguinte notícia: um médico que atende em um posto móvel, da Fundação José Silveira, empresa conveniada com à Secretaria de Saúde da Bahia, receitou para uma paciente obesa "cadialina". Quando ela perguntou onde encontraria o medicamento, ele indicou que ela procurasse um ferreiro e mandasse fazer seis cadeados. Para a boca, para a geladeira, para o armário, para o freezer, outro para o congelador e outro para o cofre. Se ela não quisesse seguir a "receita", ele indicou fazer 4 dias de jejum na semana e nos outros 3 dias só beber água.
O médico foi afastado, mas quando foi procurado pela mídia, respondeu o seguinte "Só usei uma linguagem figurada", "É uma paciente que tem compulsão por alimento. Infelizmente, ela vive numa comunidade que não tem capacidade de abstrair as coisas", e pediu desculpas "se foi mal interpretado".

E sabem o que me surpreende, é que notícias assim não tem grande impacto. Por que a maior parte da sociedade acha mesmo que tudo que precisa para emagrecer é "força de vontade" e "fechar a boca", afinal de contas "só é gordx quem quer". E é muito fácil de perceber isso analisando os comentários feitos na notícia.



Fonte: http://slutshamingdetected.tumblr.com

O preconceito não está só nas páginas virtuais, esta no mercado de trabalho, nas redes de ensino, nos meios midiáticos e, o que considero o pior de todos, nas nossas famílias. Em uma pesquisa realizada pela empresa Catho foram entrevistados 16 mil cargos de gerência, 59,1% deles afirmaram ter algum tipo de objeção na hora de contratar funcionários obesos. Em uma pesquisa do Hospital do Coração, 54% dos homens e 46% das mulheres afirmaram que não se casariam com uma pessoa obesa. Em um estudo realizado em um instituto de saúde em Nova York, 40% dos médicos afirmaram ter uma "reação negativa" em relação ao paciente obeso. Outro estudo, mostra que mulheres obesas recebem salários menores, como uma forma de "penalização", e que o mesmo não acontece a homens obesos e, também que, as mulheres tem um medo inconsciente, muito maior do que os homens, de engordar.



Fonte: http://slutshamingdetected.tumblr.com
Ofender uma pessoa por que ela é gorda não vai fazer com que ela emagreça, só vai fazer com que ela tenha sua auto estima ferida e seus sentimentos magoados. Quando você fala para uma pessoa gorda emagrecer, com a desculpa de que você só esta falando por que quer o melhor para ela, na verdade você só está procurando um meio de continuar expressando seus preconceitos. A mídia idolatra o corpo magro e, muitas vezes, anoréxico. O preconceito com as pessoas gordas não é uma preocupação com a saúde delas, é uma forma de controlar e engessar as pessoas nos estereótipos desejáveis pela mídia e pela sociedade, não se preocupando com os meios utilizados para alcançar o "corpo perfeito".


Uma pesquisa nos EUA mostrou dados alarmantes em relação a compulsão (reforçada pela mídia e pela sociedade) feminina de se enquadrar no estereótipos propagados pela mídia:
- 67% das mulheres estão tentando perder peso
- 53% das mulheres em dieta já estão com um peso saudável mas ainda continuam tentando emagrecer.
- 39% diz que se preocupam que o que elas comem ou quanto elas pesam vai interferir na felicidade delas.
- 37% diz que frequentemente pulam refeições para tentar perdem peso.
- 25% diz que ficaria muito chateada se ganhassem 3kg
- 26% eliminaram completamente algum grupo alimentar de seu cardápio
- 16% fazem dietas com menos de 1000 calorias por dia
- 13% fumam para emagrecer
- 12% diz que frequentemente comem quando não estão com fome, e 49% diz que de vez em quando fazem isso.

O resultado desta pesquisa é que 65% das mulheres entre 25 e 45 anos têm algum tipo de distúrbio alimentar, sendo que 10% tem sintomas de anorexia e bulimia, e 75% se comportam e pensam anormalmente em relação a comida.
E é por isso que a luta contra a gordofobia também é uma luta feminista, pois lutamos por igualdade de direitos para todxs. Ninguém é melhor que ninguém neste mundo. Não é por que a pessoa está em forma, que ela tem direito de se achar superior a uma pessoa gorda. Não é por que a pessoa se formou em medicina, que ela tem direito de se achar superior a um paciente que vive na periferia. Não é por que a pessoa é homem, que ela tem direito de se achar superior a uma mulher. Somos todos iguais, nem melhor, nem pior que ninguém.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Escrevendo uma Feminista no Facebook

Agora o Escrevendo uma Feminista têm uma pagina no facebook. Além das atualizações no blog teremos várias outras atualizações por lá. Curtam e fiquem de olho ;)





quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Não odiamos as pessoas. Odiamos o sistema!


Mantenha calma e lute contra o patriarcado.
Nossa sociedade atual é extremamente hipócrita, cheia de dois pesos e duas medidas para diversas situações. Basta entrar em um canal de notícias e observar os comentários. Gostamos de apontar os defeitos, de criticar a vestimenta, de levantar hipóteses a respeito de coisas que nem conhecemos, de julgar comportamentos e atitudes de acordo com os nossos preconceitos, enfim, estamos sempre nos achando no direito de opinar na vida dos outros, afinal nossa opinião têm que ser verdade absoluta para toda a população mundial certo?

O problema é que a nossa sociedade está obcecada em cuidar da vida dos outros. Isso nos faz sentir superiores, menos defeituosos, mais confortáveis com nossas próprias falhas e nossos próprios problemas. Nos sentimos no direito de examinar o comportamento e de tentar corrigir o que achamos ser os "erros" do próximo. Nos esquecemos que a beleza está nas diferenças e na individualidade de cada um. Enquanto estamos lutando uns contra os outros, nos odiando mutualmente, o ser humano perde, e o sistema ganha.

Fonte: Crocomila, excelente cartunista, acessem o blog dela,
 têm muitas tirinhas sobre desigualdade de gênero
http://crocomila.blogspot.com.br/
É por isto que a luta feminista é uma causa que luta por todos. Não combatemos os homens, não combatemos os padres e pastores, não combatemos o partido da direita. A nossa luta não é direcionada contra um grupo ou contra vários grupos em particular. Combatemos o sistema, e não a sociedade. Acho que é por isso que tanta gente se sente atacada pelo feminismo. O sistema, o nosso modus operandis, já está tão enraizado em nossas mentes, que quando alguém o ataca, sentimos que estão nos atacando, e partimos para defensiva.

É muito comum quando criticamos a cultura de estupro, por exemplo, vermos homens super indignados e nervosos, dizendo que estamos acusando todos os homens de serem potenciais estupradores, que estamos generalizando, que eles nunca estuprariam ninguém, que nós mulheres é que somos vitimistas, e etc, etc, etc... Se sentem atacados, como se a critica fosse direcionada diretamente ao sexo masculino. E não é! Quando criticamos a cultura de estupro, há muitos fatores envolvidos e controlados pelo sistema: as propagandas que mostram mulheres como objetos, as notícias que sempre fazem questão de apontar como se as atitudes ou vestuário da mulher tivesse sido a causa do estupro, achar normal dizer coisas como "nossa com essa roupa deve estar querendo alguma coisa", "** de bêbado não tem dono", "mulher tem que se dar ao respeito para merecer respeito", humoristas fazendo piada sobre estupro "o cara que estupra uma mulher feia merece um abraço", entre outros. E são esse fatores que criticamos, a permissividade do governo em relação a mídia, atitudes e frases que normalizam este tipo de crime e que diminuem a gravidade do mesmo, ou seja, todo um SISTEMA que controla, incentiva e permite a cultura de estupro.

Beber não é um crime. Estuprar é.
A sociedade precisa sair desta bolha que a cerca e que a impede de pensar, de raciocinar. Estamos nos preocupando mais em impedir o progresso das minorias, em impedir o acesso a igualdade de direitos, do que nos preocupamos com o nosso futuro, o o futuro do nosso planeta. Ficamos assistindo nossa vida acontecer através da televisão, e nos sentimos participando dela quando fazemos um comentário de como aquela atriz está gorda/feia ou de como aquela mulher que apanhou o marido devia ter denunciado antes ou aquela mulher que matou o marido que a traiu estava é muito certa.

Saímos por ai divulgando a opinião do sistema patriarcal (que chamamos de "nossa" opinião), e se alguém se sente ofendido ou magoado, gritamos "liberdade de expressão" (ou sera liberdade de opressão?).

O que a civilização tem feito com o corpo das mulheres não é diferente do que o que é feito com a Terra, com as crianças, com os doentes, com o proletariado, ou seja, de tudo o que supostamente não podemos “falar", e, em geral, de qualquer coisa que os poderes reconhecidos do governo e da gestão não querem ouvir, e que é assim relegado para a exclusão de toda atividade reconhecida, relegado ao papel de uma mera testemunha.
- Tiqqun

Fonte: Machismo nosso de cada dia


terça-feira, 6 de novembro de 2012

A Tripla Jornada Feminina - Descobrindo o Mito da Beleza

Na década de 70, quando, finalmente, ocorreu a emancipação feminina e as mulheres conquistaram o direito de ter uma carreira e um trabalho, muitas ainda eram as únicas responsáveis (e muitas são até hoje) pelos trabalhos domésticos e pelos cuidados com os filhxs, perfazendo uma carga horária de trabalho duas vezes superior a do homem na época, com a soma entre o trabalho dentro e fora de casa.

Mesmo com essa dupla jornada as mulheres estavam conquistando muito espaço no mercado de trabalho e em pouquíssimo tempo. No livro de Naomi Wolf, "O Mito da Beleza", publicado em 1991, ela cita os seguintes dados "Nos Estados Unidos, entre 1960 e 1990, o número de advogadas e juízas subiu de 7.500 para 180.000; o de médicas, de 15.672 para 108.200; o de engenheiras, de 7.404 para 174.000. Nos últimos quinze anos a quantidade de mulheres eleitas para cargos públicos municipais triplicou, atingindo o número de 18.000".

Como era de se esperar essas conquistas não foram bem vistas pelo nosso querido sistema patriarcal e nosso governo (composto em sua grande maioria por homens). Com as mulheres mostrando-se tão capazes e inteligentes, uma igualdade absoluta de gêneros, geraria uma maior concorrência no mercado de trabalho e mais trabalho em casa para os homens.

O sistema precisou criar um backlash imediato, e sua primeira tentativa foi aumentar a carga horário de trabalho da dupla jornada por não fornecer creche em número suficiente para todos. Afinal uma mente ocupada o tempo inteiro com duas jornadas, não teria tempo para pensar em outras trivialidades como direitos iguais e em promoção para cargos superiores. Mas nós mulheres somos engenhosas, e muitas começaram a contratar mulheres de posição social inferior para realizar o trabalho doméstico e auxiliar nos cuidados com os filhxs. Atualmente, só na cidade de São Paulo, mais de 175 mil crianças aguardam vaga para creche. As mães que não têm condições de pagar uma creche particular, acabam deixando seus filhxs, com amigxs, vizinhxs e familiares, para poder conquistar sua independência e lutar por suas carreiras. Portanto o sistema, apesar de prejudicar milhares de mulheres e crianças com a falta de creche, ainda assim não conseguiu conter o avanço feminino.


As mulheres já tinham a carreira/trabalho + trabalho doméstico/maternidade, porém o sistema achou que havia ainda muito "tempo livre", tempo esse que podia ser usado para pensar (!), para crescer na carreira, para ocupar maiores posições no mercado de trabalho e para alcançar melhores resultados na luta contra a desigualdade. Esse "tempo livre" não era, e continua não sendo, interessante para o sistema patriarcal e para o governo. Para eles era (é) interessante que a mulher continuasse no mercado de trabalho (dentro de nichos específicos "femininos") sendo uma mão de obra mais barata, dócil, instruída, com auto estima reduzida, com tolerância para tarefas repetitivas e monótonas, alto nível de conformidade e pouca sensação de controle em suas próprias vidas. Foi então criada a terceira jornada de trabalho para as mulheres, que eu, particularmente, considero mais cruel e muito mais eficiente que as anteriores. O mito da beleza, conforme Naomi Wolf explica, é a última e melhor técnica de treinamento para forjar uma força de trabalho dessa natureza.

Antes do processo de libertação feminina as profissionais da beleza, como modelos, bailarinas, atrizes e escorts, eram anonimas, de baixo status social e não merecedoras de respeito. Atualmente estas mesmas profissionais são elevadas ao padrão de ideal, são exibidas na televisão, na internet, nos jornais, nas revistas, em todos os meios midiáticos, constantemente lembrando as mulheres que é esse tipo de "perfeição" que elas devem atingir.

A lei apoiou e sedimentou a ação do sistema. Entre 1970 e 1980, tivemos juízes:
- sentenciando uma mulher a perder 1,5 kg por semana ou ser presa
- decretando que a beleza era legalmente um motivo para ganhar ou perder o emprego
- juiz federal decidindo que empregadores tinham sim direito de fixar padrões de aparência.

As decisões judiciais e a mídia, foram as principais responsáveis pela disseminação e pelo sucesso da implantação do mito da beleza na sociedade. Para substituir o controle que a religião exercia sob as mulheres, foram criados os ritos da beleza, com uma incrível semelhanças a rituais religiosos e seitas, mas ao invés dos mesmos controlarem o apetite sexual feminino coloca um controle e um tabu semelhante ao apetite oral das mulheres.

O mito da beleza instituiu dois medos principais para controlar a mulher: o medo do envelhecimento e o medo da gordura.  Enquanto as indústrias da "beleza" lucram com nossos temores, 81% das meninas de 10 anos de idade tem medo de engordar, se pudessem ter um desejo magicamente atendido a primeira escolha de garotas de 11 à 17 anos seria ficar mais magra e 65% das mulheres/meninas tem algum tipo de distúrbio alimentar.

Duas formas de mídia e representação femininas são utilizadas contra nós: uma que "apenas" transforma nossos corpos em objetos e outra que comete violência contra ele. Enquanto a mídia vende e lucra com essas "idéias", 1 em cada 6 mulheres foi estuprada ou sofreu uma tentativa de estupro, mais de 45 mil mulheres foram mortas no Brasil nos últimos 10 anos por companheiros ou ex-companheiros, especialistas dizem que a principal causa dos crimes de violência contra o gênero feminino é devido a coisificação das mulheres, os homens vêem as mulheres como objetos, como posse.

Também no livro de Naomi Wolf, ela cita que seios, coxas, nádegas e ventres são as partes do corpo que as mulheres mais costumam odiar/reclamar. São também as partes mais importante sob o aspecto sexual. São essas as regiões espancadas com mais frequência por homens violentos. As partes que os assassinos sexuais mais mutilam. As partes mais exibidas em propagandas e na mídia. As partes que os cirurgiões plásticos mais operam. As partes que produzem filhxs e os amamentam. Uma cultura misógina conseguiu fazer com que as mulheres odeiem o que os misóginos odeiam. Elas mesmas.

"Seu estomago não deveria ser um cesto de lixo"
A menina aprende desde a mais tenra idade que as histórias só acontecem a mulheres "lindas". São ensinadas pela mídia, pelos brinquedos e por tudo que as cercam de que seu valor está em sua "beleza". Porém cada vez mais este padrão de "beleza" se afasta do atingível , e se torna realidade apenas em imagens irrealísticas modificadas pelo photoshop. Isso faz com que essas meninas se tornem mulheres em constante busca por essa "beleza", sempre insatisfeitas, sempre infelizes, o que por fim se transforma em quadros de depressão, em distúrbios alimentares, em ataques de panico, em mulheres que não acreditam em seu potencial, que não esperam grandes progressos em suas carreiras, que aceitam homens machistas em suas vidas por não acreditarem que merecem algo melhor, que acatam com tudo que o sistema patriarcal impõe por achar que elas é que são as culpadas e merecedoras do mal que lhes acomete.

Para a cultura do consumo é interessante manter estas inseguranças, mas a sobrevivência do ser humano depende do equilíbrio entre o feminino e o masculino. Só a industria de dietas movimenta por ano nos EUA, 40 bilhões de dólares. Se nós não lutarmos para acabar com estas diferenças, não lutarmos pelo equilíbrio, quem vai lutar por nós? O sistema e as industrias tem o interesse próprio deles, se a consequência é infelicidade de 52% da população mundial, para eles tanto faz, desde que o lucro continue aumentando.